Lílian Maial

Basta existir para ser completo - Fernando Pessoa

Meu Diário
27/02/2010 16h20
DE NOEL A SANTA CRUZ – trem bão, sô!
De Noel a Santa Cruz – trem bão, sô!
®Lílian Maial
 
 

 
Por ocasião de um compromisso num bairro bem distante e contramão daquele onde moro, fui levada a usar a ferrovia como meio de transporte. Saí com as crianças, partindo de Vila Isabel, fazendo baldeação, entre ônibus, trem do metrô e trem ferroviário (a Supervia). Deveríamos pegar o trem direto (não o parador) que vai até Santa Cruz, mas saltando antes, em Bangu.

O que, para mim, era novo e misterioso, é o transporte diário de milhares de trabalhadores que residem longe do local de trabalho, amargando mais de 1 hora no percurso, muitas vezes desconfortável, tanto pela lotação, com as pessoas se amontoando, quanto pela temperatura nos vagões, nem sempre refrigerados.

Como “marinheira” de primeira viagem, atrapalhei-me toda com a quantidade de detalhes a serem observados na estação, em relação aos destinos, horários e plataforma correta, pois a estação em que eu me encontrava não era a final, ou seja, saíam trens para ambos os sentidos, e sem  ninguém para orientar.

Depois de “pagar uns micos”, dando “bandeira”, como se fôssemos turistas de casa, corremos para pegar um trem que estava parado e não sabíamos por quanto tempo. A única forma de eu entrar naquele trem era correndo, mesmo, porque, assim, não repararia no estado precário dos vagões, na ausência de refrigeração e no aspecto que dominava o local.

Fazendo um pequeno parêntesis, fiquei triste com a situação dos trens. A população trabalhadora não merece ficar à mercê do total descaso dos donos da situação, que deixam os comboios com a aparência de abandono, sujos, feios, sem conforto. Se levarmos em conta que a maioria das viagens é longa, o sofrimento, em horários de pico, é muito maior do que o que experimentei hoje, um sábado, quando o trânsito de pessoas para o trabalho é muito menor. Assim mesmo, pude observar e me sentir bastante incomodada com tudo o que vi.

Bem, era cedo, num sábado, e o trem estava relativamente vazio, embora não o suficiente para a escolha livre de lugares. Éramos em número de cinco e não conseguimos ficar juntos. Espremida entre uma moça e meu filho caçula, fiquei acomodada, porém com os braços presos, sem movimento, causando, ao final de pouco tempo, certa dormência. Janelas abertas, felizmente o clima estava ameno.

Tão logo deixamos a estação, uma profusão de vendedores começou a recitar o repertório de frases feitas para chamar a atenção para seus produtos. Tinha de tudo: chocolate, barrinhas de cereais, revistas ensinando a decorar unhas e a fazer as mais diversas sobremesas e quitutes, tinha alicate de unha, espremedor de limão, borrachas vedantes de panela de pressão, cotonetes. O mais engraçado e curioso era um vendedor, rapaz novo, ainda, anunciando os milagres da “raspa de juá” em sabonete. O camarada enumerava tantos benefícios e tantas doenças, que me fez lembrar aqueles caixeiros-viajantes, vendedores de tônicos, tão bem caracterizados em filmes do velho oeste americano, doutores na arte de inventar curas milagrosas. Mas o que me chamou a atenção é que ele anunciava a cura da caspa, seborréia, “pano branco” e micoses em geral, além dum monte de mazelas, e ele, o propagandista, estava cheio de caspa e micose de pele. Enfim, coisas do shopping do trem.

Perdida em meus devaneios poéticos, percebi a expressão serena, embora sofrida, das pessoas no interior do meu vagão. Havia todos os tipos reunidos, alguns sonolentos, outros distantes, poucos sonhando acordados, muitos de olhar nublado, numa comunhão anônima e contrita, cúmplices na dor e no lazer, nas agruras e vicissitudes, como num casamento, na alegria e na tristeza, oriundos de uma convivência compulsória.

Vi finalmente chegar a estação de Bangu e saltamos.
A saída foi tranqüila e o bairro é bastante agradável e receptivo.

Quando acabei de resolver o que tinha ido fazer lá, horas mais tarde, era tempo de retornar. Outra peregrinação, pois soubemos que não havia trem direto naquele horário nos finais de semana, e que teríamos que nos arranjar com o parador. Que remédio?

Para minha surpresa, o trem era mais moderno, refrigerado, de aspecto bem mais novo, do tipo dos trens do metrô carioca. Mas não havia lugar para sentar. Fiquei preocupada de ficar mais de 1 hora de pé, depois de ter andado para lá e para cá por umas 3 horas, já com as pernas doídas, e tendo de me segurar no balaústre, com o ombro ainda em recuperação de uma rotura muscular. Céus!

Felizmente meu filho mais velho conseguiu, algumas estações depois, um lugar, e me acomodei como pude, ao lado de uma senhora e seus dois filhos pequenos, cada um com seu celular, providos de MP3, cada qual tocando uma “música” diferente, em alto e bom som. Não era possível!  Funk e temas internacionais de novelas!         - Ninguém merece! – pensei eu.

Mais umas três estações, já com uma dorzinha de cabeça se insinuando, mãe e filhos barulhentos e de gostos duvidosos saltaram, para alegria dos passageiros.

Nesse ínterim, nova invasão de ambulantes vendendo de tudo. Traziam um gancho para dependurar no balaústre e, dele, saíam “galhos metálicos” crivados de balas, chocolates, apetrechos domésticos, controles-remotos, mais cotonetes (como esse povo tem cera de ouvido! Serão as músicas dos celulares?), canivetes suíços, lixas e alicates de unhas, enfim, inúmeras “utilidades do lar” ao seu alcance. O que meu filho chamou a atenção é que ninguém vendia lápis e papel, palavras-cruzadas ou pequenos livros. O mais lógico, em longas viagens, seria passar o tempo com uma leitura, ou com jogos de raciocínio... Fica a sugestão para futuros empreendedores.

Dentro do possível, eu literalmente viajei! Um pouco mais tranqüila, pela presença de 2 seguranças em nosso vagão (o que não havia na ida, no trem velho), pude reparar nas quadras e comunidades das Escolas de Samba da Mangueira, do Império Serrano e da Mocidade de Padre Miguel, vi o “Engenhão” – estádio do glorioso Botafogo - e o Maracanã, vi o Hospital Memorial, o antigo e emergencial Hospital Municipal Salgado Filho e, ao longe, a cortina de morros verdinhos emoldurando a linha do trem.

Foi um dia bastante diferente e gratificante, na medida em que convivi com a população que havia muito não mantinha contato, e que sentia uma saudade imensa, pela semelhança com o Rio dos meus tempos de infância.

Depois dessa viagem pitoresca por um Rio diferente, porém dentro do meu Rio, descobri a razão das músicas de Noel Rosa e dos sambas-enredo maravilhosos das agremiações carnavalescas saírem desses locais: a poesia mora ali! Apesar das dificuldades e descaso de autoridades, as pessoas são alegres e vivas, mais vivas que qualquer um de nós, e trazem a poesia na bagagem, dentro de cada vagão de trem.
 
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Publicado por Lílian Maial em 27/02/2010 às 16h20
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15/01/2010 23h23
HAITI, ANGRA, ILHA GRANDE E MEU CORAÇÃO
 Haiti, Angra, Ilha Grande e meu Coração
®Lílian Maial
 

Relutei muito, antes de escrever sobre essas tragédias que nos chocaram desde o final do ano passado. A dor do outro é a minha dor. Posso sentir o cheiro da morte, as cores do desespero, o gosto de desamparo.

As fotos dos desabrigados, feridos e órfãos de esperança se assemelham em qualquer parte do mundo. Somos calejados, lutando arduamente contra a mortalidade infantil, a violência, a fome, a miséria, tragédias não menos graves e desalentadoras, por serem endêmicas, crônicas, e não mobilizarem o mundo todo, como as catástrofes amplamente noticiadas.

A dor da perda não tem etnia, credo ou classe social. É universal.

Todas as vezes que me deparo com notícias de mortes, sejam por fenômenos devastadores da natureza, sejam por crimes violentos, por acidentes de trânsito, passionais, justas ou injustas, sinto como se fosse eu a perder. E, no fundo, é assim.

Fazemos parte de um coletivo indivisível, raciocinamos, vemos, falamos, amamos e odiamos, de maneira geral, da mesma forma, entendendo o que significa cada um desses sentimentos.

Quem não consegue entender o que seja saudade?Pode até não haver palavra em outra língua que traduza o mesmo significado, mas todo ser humano sabe o que é e já sentiu.

Quem não sabe o que é medo? Qual ser humano não aprende seu significado logo na tenra infância?

Quem não compreende o que seja proteção? Afeto? Amor?

E o que é feito de nós, quando perdemos o chão, o teto, o aconchego?

Há pouco vimos famílias inteiras dizimadas pelos desabamentos e alagamentos provenientes das chuvas, em diversas cidades do país. Acompanhamos entrevistas doridas, enterros, despedidas. Vimos o olhar de desesperança daqueles que levaram uma vida inteira de trabalho para construir um lar e seus pertences, e verem tudo ser levado pelas águas, incluindo seus bens mais preciosos: a família.

Agora vemos um pequeno e pobre país devastado por terremotos, onde milhares de vítimas - mortas, desabrigadas, feridas ou órfãs - aguardam um milagre que não virá, estupefatos, ainda, e sem terem aonde ir.

Não há como não sentir! Não há como não nos colocarmos em seus lugares, imaginar o que estarão passando e o que a vida ainda lhes reserva.

Por isso relutei tanto em escrever sobre o Haiti, porque, de verdade, não há como não me ver nos olhos daquele menino sujo de cimento e sangue, sentado na calçada dos escombros, com o olhar num horizonte fictício, atônito, sem chão e sem nada, nem mesmo a morte.

Hoje eu também estou no Haiti, como estive em Angra e na Ilha Grande, que, como o Meu Coração, estão de luto pela perda de seus filhos, meus irmãos.

Sei que nada posso fazer para impedir a dor de todos os que ainda sentirão dor, os que ainda mendigarão, os que ainda implorarão pelas vidas dos seus filhos, os que ainda tirarão a vida de outros irmãos, os que contribuirão para a dor alheia, porém, posso elevar meu pensamento, espalhar a palavra e entoar uma prece, um cântico, um acalanto.

E que a Grande Mãe se apiede de seus filhos e de nós, mães de todos eles!
 
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Publicado por Lílian Maial em 15/01/2010 às 23h23
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01/01/2010 19h49
A RESSACA DO DIA PRIMEIRO – VERSÃO 2010
A RESSACA DO DIA PRIMEIRO – VERSÃO 2010
® Lílian Maial 

 
Dois mil e dez já começou muito bom, e promete... Era prevista uma virada de ano com chuva, e o tempo deu um tempo para os cariocas, e conseguimos chegar em 2010 com alegria e sequinhos. Champanhe excelente - rapidamente esvaziada - fogos coloridos e, para fechar o ano com chave-de-ouro, ou melhor, de prata, uma lua azul, que é como é chamada a segunda lua cheia num mesmo mês.

Após um pequeno tempinho para lembranças (dos meus mortos e de alguns vivos), não houve mais lugar para nada, que não fosse positivo, esperançoso e otimista.

Acordei tarde, lânguida e feliz, num ano regido por Vênus, Oxalá (auxiliado por Iemanjá),  e do Tigre, no horóscopo chinês, que promete que tudo acontecerá com maior intensidade, tanto para o bem, quanto para o mal. Ele representa a coragem, a potência, a ousadia e a paixão, e pode significar superação.

Já Oxalá promete encher o ano de 2010 de beleza, amor, evolução e tendência à perfeição, em resumo: progresso. E Iemanjá, orixá adjunto em 2010, auxilia nos casos de saúde, e tende a trazer fartura, paz e amor.

Sob a regência de Vênus, o toque especial do ano será a busca do entendimento, paz e divisão com o semelhante, isto é, altruísmo, sem falar no prazer e satisfação.

Assim, já me levantei consciente de que o ano de 2009 trouxe muita apreensão, escândalos, corrupção, gripe suína, crise mundial, e que 2010 não será muito fácil, porém, se mantivermos a postura otimista e de colaboração, de amor e fraternidade, este poderá ser o ano de união, reorganização e ultrapassagem de obstáculos.

E, surpreendendo a todas as previsões, o sol surgiu para alegrar o primeiro dia do ano, num prenúncio de coisas boas e iluminadas.
Como no início de 2009, não me perdi em "balanço" do ano que terminava, nem senti que houve interrupção em nada na minha vida. Foi apenas um dia de festa, de brilho e sorrisos. Não fui à praia, imaginando que fosse chover, mas descarreguei todo o tipo de pensamento negativo, apenas deixando-me tomar pela alegria e gratidão por estar viva por mais um ano, por poder abraçar meus filhos mais uma vez, sentindo seu amor e confiança, e por ainda ter minha mãe comigo, mesmo que com todas as restrições que a idade lhe impõe.

Agradeci, ainda, o novo amor que entrou na minha vida, que é minha futura nora, atenciosa, carinhosa e que vem contribuindo para a felicidade de meu primogênito, e a minha, por tabela.

Sem que eu tivesse provocado, fui invadida por um gostoso sentimento de plenitude, de satisfação pela capacidade de administrar as intempéries que sempre surgem sem aviso, além da inesgotável fonte interior de amor e alegria com os valores mais simples.

Apesar de todas as mazelas nacionais, senti um imenso orgulho de ser brasileira, de pertencer a esse povo forte, resistente, bem-humorado e feliz. Orgulho de nos superarmos nos esportes, mesmo sem grandes incentivos e patrocínios. Orgulho por termos conseguido superar a crise mundial, se não como uma lagoa de águas plácidas, ao menos como um mar de ondas pouco assanhadas. Orgulho por termos sido escolhidos para sediar as Olimpíadas de 2016, após já termos sido agraciados como sede da Copa de 2014. Um orgulho danado de ter visto o presidente do meu país, a despeito de toda a algazarra acerca de seu pouco estudo, ter superado em carisma e eloqüência, nas reuniões em Copenhague, para a defesa do meio-ambiente e combate ao aquecimento global, o próprio presidente dos EUA – tão aclamado como esperança pelo mundo.

Sei que 2010 será um ano de luta, de aperto financeiro para o crescimento necessário, de combate à corrupção e ao tráfico de drogas, de união para fazer valer nossa voz nas conquistas sociais e na busca tão propalada pela paz.

 Mas nada disso poderá ser realizado, se não começarmos a nos organizar dentro de casa, na criação dos filhos, com valores justos, no nosso prédio, na nossa rua, no bairro, na cidade. É preciso que tenhamos consciência de que “uma andorinha só não faz verão”, ou melhor, o individualismo não nos leva adiante.

Este é o momento de tomarmos iniciativas e partirmos para atitudes e ações. Os planos já tiveram muito tempo. É hora de agir. Para isso, temos que nos dar as mãos, porque somente a união será capaz de gerar frutos. Até a natureza sabe disso!

Este ano, ainda não passei a minha agenda a limpo. É uma tortura necessária, que adio o mais que posso, porque sei que vou encontrar aqueles nomes que eu deveria ter visto mais, aqueles que deveria esquecer, e alguns que sei que me esqueceram, além daqueles que terei de apagar, por não estarem mais entre nós. No entanto, passei a computar com mais alegria os novos nomes, aqueles que não estavam na agenda do ano passado e, certamente, deixarei bastante espaço para os nomes de quem ainda conhecerei.  

Em 2009, tive a oportunidade de viajar bastante, a trabalho, e travar muitas novas amizades com meus alunos. Foi uma dádiva, que pretendo continuar em 2010, preenchendo a agenda com nomes de todos os cantos do país, que tem um povo maravilhoso, tão rico em semelhanças e diferenças.

Nesse momento, vou até minha varanda, cheia de plantas e flores, e verifico que quase não há pessoas nas ruas. Todos em suas casas, em suas vidas, em suas letras, num retiro voluntário. É quando meu pensamento se volta para os plantonistas, que deixam suas famílias e seus lares, para que outras famílias tenham o alento de alguém que cuide de seus amados. São médicos, enfermeiros, auxiliares, recepcionistas, bombeiros, policiais, farmacêuticos, cozinheiros, garçons, repórteres, fotógrafos e tantos outros profissionais dedicados, que cuidam dos doentes, dos desabrigados, das vítimas de incêndios e desabamentos, além daqueles que trabalham para que tenhamos lazer.

Meu pensamento também voa para junto dos idosos em asilos, dos doentes em instituições, dos presidiários arrependidos, dos órfãos, dos pacientes terminais, dos deprimidos, dos solitários. Talvez eles não tenham sorrisos, e eu tenho tantos...

Mais uma vez percebo que, apesar do calendário e da tecnologia me dizerem o contrário, nada realmente mudou, no mundo, em mais de dois mil anos, a não ser os ponteiros da balança, depois das festas...
Feliz 2010 para todos nós, com amor e generosidade!
 
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Publicado por Lílian Maial em 01/01/2010 às 19h49
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27/12/2009 16h45
E LÁ SE FOI O NATAL...
E lá se foi o Natal...
®Lílian Maial

 
Desperto cedo, no entanto, a casa dorme. É dia 27 de dezembro, mas ainda há resquícios do Natal: tudo meio bagunçado, como que arrumado às pressas, e com cheiro diferente, numa mistura de tender, peru e rabanada.

A rua já esboça certo movimento preguiçoso e até o sol demora a sair de trás das nuvens, num ato de rebeldia por ter que raiar.

Circulo pelos cômodos e percebo o tanto de energia que foi gasto para aquela noite especial, que embute um misto de surpresa, expectativa e comunhão. Nesse dia, há uma necessidade de se agrupar, de reunir a família, mesmo aqueles que não se dão o ano inteiro, de ter a casa cheia, de mostrar a cristandade que habita a todos nós, incluindo os ateus de todas as religiões. Todo mundo parece fazer questão de brindar pela paz, pelo amor, pela igualdade. E isso gera uma energia e, no pós-Natal, um cansaço, como se toda a energia do ano tivesse sido gasta ali.

Será assim em todo o mundo? Será isso mesmo o que acontece por todos os povos?

Nada como um dia pós-Natal para se pensar essas coisas. Mas, aí, abro o jornal e leio que um grupo de brasileiros fora atacado na véspera de Natal, com inúmeros mortos, feridos, desaparecidos e mulheres estupradas na fronteira do Brasil com o Suriname, e por razões obscuras, por medição de forças. Será que por lá não é Natal?

Leio sobre atentados em aviões, sobre disputas internacionais por uma criança, quando há tantas crianças sem ninguém que lhes dirija sequer um olhar... O que deu errado? Por que Papai Noel não visitou essas criaturas? Por que o “espírito de Natal” não baixou no Suriname? O que há com essa turma?

Está certo que o Natal não modifica as pessoas, não muda a situação social, política, econômica de ninguém, mas até nas guerras, no dia de Natal, sempre houve um cessar-fogo, uma trégua, um certo respeito, se não ao menino aniversariante, ao menos a tudo o que simboliza o humano que há em cada um de nós.

Deveria ser uma data símbolo de bondade, de fraternidade, de altruísmo. E não, não é o que as manchetes apontam. Virou coisa careta, démodé, ultrapassada se acreditar na humanidade e na generosidade. Hoje em dia, somente os interesses contam. Natal virou comércio, disputa pelo melhor presente mais barato, ou apenas mais um feriado, em meio a tanta corrupção, mandos e desmandos da politicagem.

Este ano, para alguns, o Natal foi Fatal. Como em 2006. Lembro-me bem, há três anos, por essa época, quando uma onda de terror se instalou no Rio de Janeiro e ações criminosas incendiaram ônibus, com mais de 20 carros lotados de bandidos, armados com fuzis e granadas, em razão de brigas entre “comandos coloridos”. Como ficaram as famílias dessas pessoas que mataram e morreram tão cruelmente? O que se passa na cabeça de quem arquiteta uma ação desse tipo?

Ah! Dias que se seguem ao Natal e prenunciam o Ano Novo sempre me fazem escrever essas coisas. Reflexão é o tipo de coisa que não cai bem em dia de ressaca de festa.

Francamente, seria tão melhor que cada pessoa fizesse um balanço das atitudes que assumiu durante o ano e registrasse o saldo positivo, planejando aumentar esse saldo para o ano vindouro, com posturas decididas e corretas... Sonho? Talvez. Mas ainda há tempo. O ano ainda não acabou, e cada um de nós pode reunir as forças e gritar, mexer, agitar, fazer alguma coisa para que seu ano possa realmente ser novo.  

De nada adianta reclamar, esbravejar, falar mal e fazer ironia sobre fatos que nós mesmos deixamos acontecer. Nós mesmos fomos responsáveis por inúmeras desgraças que, hoje, criticamos. Quem sabe Papai Noel não esteja justamente esperando o nosso sinal verde para entregar os verdadeiros presentes? Ou, melhor, o verdadeiro futuro?

Que 2010 – ano regido por Vênus – ano do Tigre – venha com a beleza e a força unidas para remodelar nossas mentes e nossos corações, para que – juntos - possamos fazer um mundo melhor, cuidando do meio ambiente, cuidando uns dos outros, resgatando a família, investindo na educação, no amor e no carinho com os nossos filhos, nossos velhos e nosso próximo!

Feliz 2010, mundo!
 
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Publicado por Lílian Maial em 27/12/2009 às 16h45
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20/12/2009 16h37
CARTA AO PAPAI NOEL - versão 2009
Querido Papai Noel,
 

Neste Natal, eu abro mão do meu presente e peço para você um novo par de óculos e um aparelho auditivo. Sua visão deve estar deteriorada, com tantos anos vendo as coisas mais inacreditáveis neste mundo, e seus ouvidos moucos, de tantos gritos e músicas funk e sertaneja.
Afirmo sua deficiência sensorial com convicção, uma vez que tudo o que pedi, no ano passado, veio trocado. Senão, vejamos:

- pedi um ano de saúde e paz, e você me coloca no governo o Arruda e o Eduardo Paes;

- pedi um sapato de salto alto, e você me deixa sofrer um assalto, em que o bandido me grita “mãos ao alto”;

- pedi avanços na Medicina e na Agropecuária, e você me envia gripe suína e recrudescência de malária;

- pedi que os ricos fossem mais generosos com os pobres, e você manda o dinheiro dos políticos para os cofres (na Suíça);

- pedi um novo amor quer fosse um assombro, e você me dá uma dor de lascar no ombro;

- pedi que o Rio se tornasse a capital do amor, e você amplia os buracos do metrô;

- pedi o Fluminense campeão para minha felicidade eterna, e você o deixou escapar do rebaixamento no sufoco na lanterna;

- pedi o fim das doenças e da fome, e você coloca no topo dos best sellers livros de vampiros bons e péssimos homens;

- pedi o fim da gula e que quem me deve, me pague, e você envia o Lula e a comitiva (de mais de 700 pessoas) a Copenhague;

- pedi o fim da violência e do tráfico de drogas, e você acaba com a inocência e deixa o tráfego uma droga!

Então, não tem que procurar ajuda? Não está na hora de trocar os óculos? Ou é tudo reflexo do cansaço e da falta de saco? Ops! E olha que seu saco é enorrrrrrrrrrrrrrrrrme!

Estou até com medo de abrir a boca ou escrever qualquer coisa para este ano, principalmente o que possa me trazer rimas constrangedoras. Vai que eu peça uma lembrança de Itu, ou muda de carvalho, uma piscina profunda, ou me casar e ficar rica... Sabe-se lá o que viria em 2010?

Assim, não peço nada pra mim. Quero que você tenha um ano de sorte, que o aquecimento global não transforme o Pólo Norte em Pólo Morte, que sua visão se amplie ao horizonte, que nosso próximo líder não seja um rinoceronte, que Irã e Iraque se dêem as mãos, e que todo o petróleo fique mesmo no chão, que as crianças não tenham mais tristezas, que o mundo só transborde de beleza, que a natureza tenha compaixão com os homens tolos, e que minha mãe continue a fazer deliciosos bolos.  No mais, fé na vida e pé na tábua, que Cielo chegou à frente, mas que atrás vem gente...

Feliz Natal, que rima com bacalhau, que rima com sensacional, que rima com Maial!
 
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Publicado por Lílian Maial em 20/12/2009 às 16h37
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