Lílian Maial

Basta existir para ser completo - Fernando Pessoa

Meu Diário
22/06/2012 20h20
QUANDO A LUZ SE APAGAR

QUANDO A LUZ SE APAGAR

®Lílian Maial

 

Quando a luz se apagar, outra serei, remexida pelas mãos curiosas dos que pretensamente me conheceram.

De nada valerá, pois não mais estará ali o meu corpo, muito embora a carne possa esculpir o contorno que foi meu.

Nem restará meu olhar, malgrado os olhos cerrados ainda possam destilar certo desdém de azul, num repouso verde ou castanho.

Tampouco meus lábios rubros, de leves fissuras a desenhar quimeras, embora um certo riso mudo, em batom de néon, possa simular presença.

Não, não serei eu, ali, quando o vento não mais emaranhar os cabelos louros, outrora ruivos, na verdade pretos.

Nem aquela, cuja ansiedade levou os anos mais depressa, vivendo outras vidas, para outros, que não eu. Pressa de folhas e frutos, raízes se embriagando de chuva, galhos de não mais abraçar a tarde, agora já noite, em nobre e desnecessário veludo mesclado de renda.

Essa, sim, deitada sem compromisso com o horizonte, sem as amarras da gravidade, que não traz o medo das descobertas e do oculto pesando, como pedra, sobre o músculo exaurido.

A que passou tantos outonos observando as primaveras e suas flores incontestável e odiosamente frescas.

A que, debalde, se mentia a completude, convencia de felicidade, aparentava desproblemas.

Então, quando o inverno gelar por completo minhas vestes de mim e o hálito quente não mais esfumaçar as brincadeiras de cigarro, nas madrugadas de frio, não serei mais a dona das minhas decisões, não poderei impedir que sonhem, que falem meu nome, que pensem coisas a meu respeito. Não terei mais o domínio do ridículo de meu frouxo discurso, armado sobre certezas dizimadas pelas verdades que só eu não conhecia.

Estarei, então, finalmente nua, de uma absoluta falta do que esconder, de um arrogante enfrentamento dos meus segredos e todos saberão que aquela não fui eu. 

E me flagrarão brincando com as folhas ao vento, rindo com as maritacas, pasma com o pôr do sol, chorando com finais felizes, ouvindo as vozes das crianças, sonhando com o semblante de tudo o que se pensa amor.

E todos dirão, com respeito honesto, que aquela sabia o seu lugar.

 

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Publicado por Lílian Maial em 22/06/2012 às 20h20
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30/04/2012 19h09
GRANDEZA
Era uma felicidade só, perceber que o sol se recolhia. Faltava pouco para anoitecer e ela poder se regozijar com os pontos cintilantes do céu estrelado. De uns tempos para cá, ela passara a perceber essas coisas. Tornara-se uma mulher romântica, cuidadosa e observadora. O tumulto do trânsito já não a incomodava, somente os perigos das ruas a colocavam em alerta. Mas aquele pássaro elegante, em seu voo rasante às margens do riacho, desviava sua atenção de qualquer dissabor. Mais uma quadra e estaria lá. Imaginar aqueles braços ao redor do pescoço, a boca molhada ofertando um beijo único e lambuzando seu rosto, as palavras desconexas... A simples antecipação dessa imagem lhe trazia prazer. Um prazer tão peculiar! Chegou! E imediatamente se ajoelhou feliz, para receber aquele abraço tão esperado, de entrega total e verdadeira, que nem a morte poderia separar. E beijou seu filho como fazia todas as noites.



 

 


Publicado por Lílian Maial em 30/04/2012 às 19h09
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11/04/2012 19h56
PAIXÃO

PAIXÃO
®Lílian Maial

 


Na varanda, debruçada sobre mim, uma vontade natural de voar. A noite acolchoa as vísceras incômodas e o luar se esconde para não testemunhar a alquimia. Transformo vinho em água. Não faço outra coisa que não aguar desde menina.
Acende-se a luz amarelada em frente ao sonho. Perturba-me o silêncio da janela fechada lá longe. Prefiro o som das mangueiras esguichando, o óleo na ...superfície lisa refletindo cores. O velho cheiro urbano de problemas.
Pessoas nos ônibus, sacolas de compras, carros que vão e vêm, todos distantes, ainda bem. Eu estou distante e reluto em chegar à varanda. Quero o manto nublado de encobrir esperas. Pesa-me a cruz. Tantas cruzes, cicatrizes, contusões.
Preciso da chuva das sextas-feiras santas para lavar o sangue que circula em minhas veias desde sempre. Meu sangue contaminado de poesia. Estúpido ofício. Não aprendi a gritar em silêncio. Não me ensinaram a desconfiar de versos simples. Não sei fazer mais nada, senão esperar.
Meu pai tinha um pó de fechar as chagas. Devia ter-me pulverizado em carne viva, me coberto inteira. Mesmo assim não curaria aquela que não sara, que não seca, que escoa pelo canto do olho.
Não gosto da varanda à noite. Não gosto de mim à noite. Não gosto de meia-noite. Não há um pingo de chuva. Não há uma gota de mim.

 


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Publicado por Lílian Maial em 11/04/2012 às 19h56
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12/02/2012 13h40
Mais uma estrela que brilha no céu

®Lílian Maial

 

Whitney Houston faleceu ontem, encontrada numa banheira de hotel, sozinha.

Eu, aqui, envolta em meus problemas, acreditando serem os maiores do mundo, e sou pega de surpresa com mais essa morte de uma pessoa que teria tudo para ser feliz, uma talentosa cantora, com uma das vozes mais potentes e interpretações mais belas, e a artista mais premiada de todos os tempos, conhecida como “The Voice” (A Voz).

Prima da não menos famosa Dionne Warwick e afilhada da diva Aretha Franklin, Whitney começou a cantar com coral gospel júnior, aos 11 anos de idade. Daí, passou a cantar com a mãe em casas noturnas, até ser descoberta e se transformar em sucesso.

O que leva uma pessoa como Whitney a se deixar cair em álcool, drogas, submissões? Como alguém que canta “The greatest love of all is easy to achieve learning to love yourself, it is the greatest love of all” (que literalmente significa “o maior amor de todos é fácil de alcançar aprendendo a se amar, esse é o maior amor de todos”) pode simplesmente deixar de se amar? Ou será que nunca se amou verdadeiramente e buscava isso incessantemente?

Não entendemos nada do ser humano. Há uma tendência a pensar que as outras pessoas não possuem problemas, notadamente as mais abastadas. Acreditar que vivem em mares de rosas, têm vida de contos de fada, não sofrem. Aí, de repente, uma notícia como esta.

Quantos artistas, ao longo dos séculos, já não se destruíram, a ponto de tirar a própria vida, cortar fora a orelha (ou outras partes do corpo), se deixar seduzir pelas drogas, álcool, anestésicos, para conseguir suportar tamanha dor? De onde vem essa dor? Cobranças do sucesso ou, melhor dizendo, do declínio? Ou será possível que todos já fossem deprimidos antes e tentavam o sucesso como forma de preenchimento de seus vazios? O que se esconde por trás dessa dor e solidão dos grandes mitos?

Seres humanos simples, de carne e osso, buscando o entendimento, o amor, a felicidade, como qualquer um de nós. No entanto, têm suas vidas expostas, constantemente vigiados, criticados, cobrados. Não conseguem ter paz, embora tenham riquezas.

E eu aqui, num dia nublado como meu momento, ouvindo baixinho “I will always love You” e “I Look to You”, tentando acreditar que o maior amor de todos é o que está dentro de nós. Whitney nos disse isso. Mas não escutou.

 

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Publicado por Lílian Maial em 12/02/2012 às 13h40
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03/02/2012 21h19
O MUNDO SEM VOZ

O MUNDO SEM VOZ

®Lílian Maial

 

 

           Deveria saber que bastaria o olhar. Deveria bastar o olhar... Apenas gestos, expressões, o ser humano prestando mais atenção ao ser humano, sua fisionomia, os sentimentos através do relance. Mas não é bem assim.

           Foi preciso um silêncio compulsório, uma cirurgia nas cordas vocais, para perceber o quanto regredimos no quesito entendimento humano.

           Ouvi dizer que a voz é a identidade da pessoa e a minha, não sem boas razões, vinha se perdendo no tempo, relegada a segundo plano. Assim que despertei, percebi que teria que resgatar tudo o que era “eu” e que estava anulado ou comprometido. E, assim, fui confiante em busca da minha voz.

           Lembro-me que costumava cantar todos os dias desde que acordava, que ia cantarolando para o trabalho, o que provocava espanto em diversos colegas.

          Hoje, quando paro para pensar que já faz um bom tempo que não canto ou ouço música rotineiramente na minha vida, fico boquiaberta! Já era hora de deixar a música e a palavra soarem livremente nos meus dias...

          Operei e tudo correu bem. Contudo, deveria ficar sete dias sem proferir uma única sílaba, sob o risco de não alcançar uma boa cicatrização e ter o resultado aquém do esperado. Imaginei que fosse fácil, afinal, tantas pessoas sobrevivem sem voz, muitas com mudez desde o nascimento, por que eu não haveria de conseguir tarefa tão simples? Ledo engano! Como é difícil se fazer entender nos dias atuais somente com gestos e olhares! O ser humano desaprendeu a ouvir os olhos...

          Munida de campainha, bloco, canetas, quadro branco e apagador, fui tentando me comunicar e constatar que é quase impossível se fazer entender frente a frente com as pessoas. No entanto, consegui manter diálogos virtuais nas redes sociais e me vi “tagarelando” pela internet, sem vibrar as desafinadas e rotas cordas do meu aparelho fonador.

          Hoje, passados dez dias do procedimento, fui liberada para falar baixo e pausadamente, para ir exercitando as pregas vocais, até assumirem sua definitiva forma.

          Curioso que meus filhos reconheceram, em mim, a mãe de outrora, numa alegria inexplicada, dessas de quem revê alguém que partira há muito...

          Eu me senti revigorada, como se houvesse encontrado parte de mim, que se perdera nessa busca incessante por cacos nos estilhaços do cotidiano.

          Interessante como um detalhe aparentemente simples pode provocar mudanças de atitude.

          Hoje, com a nova/velha voz, percebo que estou mais forte, mais decidida, mais eu, como há muito não sentia.

          Só lamento ter sentido na pele que a espécie humana esteja a cada dia mais virtual, mais idealizada e desaprendendo o que os bebês entendem tão cedo: a observação através do toque, a comunicação através dos gestos, dos olhos, dos sorrisos.

           Sinto muito que a palavra não consiga ser soletrada com os sentidos e que o outro não valha mais do que uns garranchos numa folha de papel.

 

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Publicado por Lílian Maial em 03/02/2012 às 21h19
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