Lílian Maial

Basta existir para ser completo - Fernando Pessoa

Meu Diário
29/07/2010 17h42
SINESTESIA
SINESTESIA
®Lílian Maial
 
 
Não adiantava fugir. Não havia caminho. Estava impregnado do gosto, do cheiro, dela.  Ele a conheceu, a descobriu, a possuiu e a incorporou. Desde então, o leve balbuciar de seu nome despertava as mais inusitadas percepções. Passou a entender a dependência. Ela era alucinógena.

Ouvia seu nome e, imediatamente, sentia seu gosto na boca. O gosto molhado de todas as suas bocas. Comia de tudo, desde sal, pimenta, alho, mas nada tirava aquele gosto de entrega, de prisão, de morte.

Era ler seu nome em qualquer mísero pedaço de papel, que lá vinha o cheiro da pele, aquele cheiro agridoce, feito umami fabricado no inferno.

Era ler aquelas letras e ser atormentado pelo olfato deliciosamente torturante de seus poros alargados orvalhando delírio.

Ela era vermelhamente doce. Verdejantemente melódica. Amarelamente quente. Purpuramente cheirosa. Era um arco-íris de sons inebriantes, ruídos de mar e vento, sussurros de vinhas.

De nada valia amaldiçoá-la. Ela habitava a profundeza de seus neurônios, era um vírus ardente, desses que se pega uma vez na vida e não tem cura. Coisa ruim, que não se quer que acabe.

Parece que some, mas basta tocar aquela música, que as chamas das velas todas se acendem, e o aroma almiscarado de seu hálito se espalha no sabor da carne macia. Seus dedos de farpas douradas arranham e acariciam, assim como seus olhos de deserto e sede.

Havia desistido de tentar esquecê-la. A cada tentativa de não lembrar seu nome, ela lhe sorria cúmplice, exalando azuis. 

 
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Publicado por Lílian Maial em 29/07/2010 às 17h42
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06/07/2010 15h26
E AGORA? ACABOU A COPA...

E AGORA? ACABOU A COPA...
®Lílian Maial
 


 

Assistirei, dentro de alguns minutos, à partida Holanda x Uruguai, pelas semifinais da Copa do Mundo 2010. Tudo bem, jogo da Copa, equipes tensas, times bons, interessante... 

Mas falta alguma coisa. Alguma coisa verde e amarela. Alguma coisa que inflama, que bole com a gente, que mobiliza o país inteiro! Alguma coisa que suplanta até os “chatos-de-plantão”, aqueles “antenados”, sérios, seres humanos superiores, que só pensam nos dias em que se trabalhou menos, os pensadores das desgraças, filósofos do nada, que sempre têm um amargor insuportável (até para eles mesmos), e que não toleram um rasgo de alegria na face do outro.

Não adianta, queridos! O mundo sempre continuará o mesmo 365 dias por ano, tendo ou não Brasil na Copa!

E ninguém quer isso o ano inteiro, ano após ano, quer? As mazelas são velhas conhecidas de todos os povos, notadamente dos menos favorecidos, mas, seguramente, eles abrem mão de tudo, até de comer, para terem alguns momentos de êxtase, para torcerem por seus sonhos, personificados naquelas partidas de 90 minutos em onze elementos esquisitos, muitos deles broncos, sem berço, sem instrução, polêmicos, chacoteados, mas todos, sem dúvida, idolatrados durante os jogos, ainda mais se acertarem algum passe, fizerem algum gol, ou alguma defesa brilhante.  A seleção de futebol é uma verdadeira seleção do que guardamos de alegria lá no fundo, do não sei o quê que tiramos da cartola, desse sentimento indescritível, mas que qualquer criança sabe o que é.

Não é só o Brasil que pára, é o mundo! É comemoração por toda a parte!

Se observarmos as pessoas que universalmente se espremem, se fantasiam, se pintam, se preparam, num ritual de alegria, alucinação e alienação, veremos que são de cores diferentes, de semblantes e idades diversas, línguas ininteligíveis, e que estão como que drogados pela droga mais potente de todas: a disputa. É na disputa que se depositam as esperanças, os sonhos, os anseios mais íntimos e menos confessáveis da humanidade. E o futebol, naquelas 22 pernas, é o instrumento, a materialização da vitória possível, mesmo que numa vida impossível de se vencer.

São 90 minutos (ou mais) de expectativa, de concentração de energia, de vibração com alguma coisa coletiva, que nos identifica, sem distinção de poder aquisitivo, de raça, de credo e de sexo. O esporte nivela as diferenças, e o futebol é mundialmente o rei dos esportes. Você olha para o torcedor ao seu lado e vibra com ele, sem nunca tê-lo visto antes, com um sorriso de cumplicidade, numa parceria intuitiva! Você não sabe nada daquele sujeito, mas gosta dele por saber que ambos querem a mesma coisa, que vestem a mesma camisa.

Otto Lara Resende dizia que “o mineiro só é solidário no câncer”, e eu digo: “o mundo só se reúne no futebol, na Copa do Mundo”.

O país se junta, o mundo se irmana e, de repente, tudo acaba. Para onde foi a energia de dias atrás? Por que essa tristeza e esse desânimo súbito?

Perdemos a Copa. Perdemos um sonho. Escapamos por pouco de ver Maradona pelado! Bobagem! Não perdemos nada de importante, é certo. Nada como um ente querido, ou um membro do corpo, ou a própria vida. É. Pensando assim, tudo não passa de uma bobagem sem maiores significados, de um circo, um nonsense, uma histeria coletiva ilógica.

Alguns pensam assim. Muitos, inclusive, se perguntam a razão de tanta paixão, de tanto gasto, de tanta mobilização. Lembrarão que o mundo atravessa crises, aquecimento global, terrorismo, epidemias, catástrofes! Sim, sem dúvida, mas não será exatamente por isto que se precisa de um ópio universal? Aí os torcedores se contagiam com esse pensamento de inutilidade, e se voltam para os crimes, as infrações, a eterna solidão do ser humano. Mas, por sorte, somente até a próxima Copa. Porque quando 2014 chegar, não tem pra ninguém: o hexa é nosso!

 
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Publicado por Lílian Maial em 06/07/2010 às 15h26
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29/06/2010 19h41
TECHNICOLOR
TECHNICOLOR
Lílian Maial


 
Tinha mania de cinema. Desde menina se encantara com as películas. Logo no início, história de princesas, imaginava-se a Cinderela e todas as fadas. Com o passar dos anos, a Fera, o Vagabundo, Jekyll & Hyde.
Trilha musical impecável, como cada frase ensaiada. A vida passava em quadrinhos, ajustado fundo musical, repleta de personagens (uns comediantes, quase sempre dramáticos, às vezes de terror), cidades de sonho e realidades pintadas a bico-de-pena.
“A vida imita a arte”. Era sua máxima preferida. De dia, era Alice e se imaginava num mundo inteiro de maravilhas. Com o cair da tarde, a Belle de Jour sem clientela.  À noite, Uma Estranha no Ninho. Não se encaixava no mundo real.
Estudou cinema, cenografia, produção, roteiro, iluminação, edição. Só não conseguia dirigir. Trauma de infância, diziam.
Perfeita atriz. Tão boa, que acreditava na felicidade cenográfica de seu dia-a-dia. No fundo, sua própria antagonista.
 
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Publicado por Lílian Maial em 29/06/2010 às 19h41
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16/06/2010 21h57
O SAL DA TERRA
®Lílian Maial


 
O choro de Jong Tae-Se, o jogador camisa 9 da seleção norte-coreana, comoveu  Johanesburgo e o mundo. O moço, de 26 anos, japonês de nascimento, de pais sul-coreanos, naturalizado norte-coreano por convicção, parecia drenar um sentimento que não cabia em si e cascateou pela face do rapaz.

Com um regime político extremamente fechado, seu país, que já admitiu possuir bomba nuclear, num momento de crise com a Coreia do Sul, após o afundamento de um navio sul-coreano, em março deste ano, matando 46 marinheiros, e com seu ditador adoentado e idoso - Kim Jong-il - não permitiu que os cidadãos saíssem do país, que tem cerca de 24 milhões de habitantes. Por conta disso, sua torcida foi forjada.

Na verdade, chineses contratados, recrutados pela empresa China Sports Management Group a pedido do Comitê de Esportes da Coreia do Norte, que forneceu cerca de mil ingressos para que ocupassem uma pequena parte das arquibancadas do estádio em Joanesburgo, formaram um animado grupo, com bandeiras e cachecóis nas cores vermelha e azul, apoiando a Coreia do Norte, ou seja, um bando de atores chineses contratados pelo regime norte-coreano.

O uso dos esportes pelos políticos, notadamente os autoritários, é bastante conhecido e usado para conquistar espaço junto à população, ou melhorar sua imagem no exterior, ou ainda exibir a “eficiência” de seu regime (lembram da antiga União Soviética nas Olimpíadas?).

E o choro de Jong Tae-Se, no momento do hino de seu país, traduzia a emoção de estar ali, na Copa do Mundo, com a oportunidade de jogar contra os pentacampeões, mas também era um choro de represa rachando o coração, lágrimas pelo povo oprimido, que sequer pôde acompanhar seu time em tempo real.

Foi noticiado que a TV estatal adquiriu os direitos de transmissão na última hora, mas que nem cogita passar as partidas ao vivo, para evitar que se vejam quaisquer imagens de protestos contra o líder Kim Jun-Il nos estádios da África do Sul, ou eventual vexame da equipe em terras africanas.

Assim, apesar da derrota, o jogador que marcou o único gol da Coreia do Norte festejou pela importância e pelo simbolismo daquela marca sobre os pentacampeões mundiais.

Voltando ao Jong Tae-Se, não houve quem não se emocionasse ao ver aquele rapagão chorar com cara de criança. Quem sabe por qual motivo? Se pela honra, se pelo medo, se pelo orgulho, se pelo povo sofrido que, além de tudo o que já suportam, não teriam nem o enlevo de usufruir de um congraçamento esportivo.

Embora adversários, os coreanos do norte cativaram um espaço terno em nossos corações, um misto de simpatia, solidariedade e conhecimento de causa, ou, talvez, apenas a identificação da liberdade das lágrimas, do breve direito de mostrar os sentimentos em público, custe o que custar.

Não houve maior representatividade do povo norte-coreano do que a explosão daquelas águas represadas, que inundaram de beleza e esperança o peito de todos os povos do planeta. 

 

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Publicado por Lílian Maial em 16/06/2010 às 21h57
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22/05/2010 17h47
DESCUBRA QUEM É, E O QUE REALMENTE IMPORTA
DESCUBRA QUEM É,
E O QUE REALMENTE IMPORTA

®Lílian Maial


 
Desde muito tenra idade que me sinto meio que “mãe do mundo”, com uma imensa necessidade de justiça, misturada à vontade premente de cuidar, de curar, de trazer bem- estar aos que me cercam, além de consciência social e desejo ardente de liberdade e igualdade entre as pessoas, qualquer que seja a cor, credo ou sexo.

Naturalmente isso tudo me causa satisfação, prazer, alegrias, exceto quando percebo os que assim não sentem, aqueles que ainda precisarão de muito chão a percorrer, de muita lição a estudar, de muito aprendizado.

Depois de muito enveredar pelos caminhos da busca interior, do sentido da vida, do “de onde vim e pra onde vou”, percebo que não importa. Nada disso importa. Nunca haverá respostas, porque as perguntas estão erradas. Não há o que descobrir, o que procurar, o que desvendar.  É preciso aprender a aceitar que a vida é uma fração de tempo finito, e que não temos o menor poder sobre ele – Chronos - não importa o quanto a ciência avance. Mais cedo ou mais tarde, Chronos nos devorará.  Só nos resta, enquanto isso não ocorre, entender que o sentido das coisas é sempre aquele a que nos propomos.

Concluo, então, que esse aparente litígio entre os sexos, a tentativa frustra de ser igual (porque não é mesmo), a vulgarização do pudor, que gera confusão na cabeça do homem entre liberdade e promiscuidade, tudo isso é fruto de mídia, que detém interesses escusos e manipula a massa.

É a mídia que lança os modismos e comanda o que deve e o que não deve ser dito, ser feito, ser usado, ser adotado como padrão. E onde ficam nossos padrões? Onde o atavismo? Onde o orgulho de ser mulher, a nobreza de ser mãe, a beleza de ser madura, a realização de ser avó, a delicadeza de ser menina, o mistério de ser todas?

Tento alcançar o fim do céu a olho nu e, nesse instante, mergulho no infinito. E sou livre. Não há sensação melhor no mundo que a liberdade. Sou livre para pensar, para querer, para sentir.
Não há o que me proíba de ser.

E olho minhas mãos. O quão livres são minhas mãos?

Essas mãos que já pediram colo, que já passearam pelo rosto e cabelos de minha mãe.
Que já se cruzaram nas costas, escondendo as artes do papai, e que também o vestiram e cruzaram as suas, em seu derradeiro adeus. Essas mãos que já amaram, que já procuraram os caminhos do prazer, que já se deram a outras mãos, em comunhão.
Que já ampararam, acariciaram, cuidaram e deram segurança a cada filho, e que também os soltaram, para que aprendessem seus próprios caminhos e acreditassem em suas próprias mãos.
Essas mãos que já curaram, confortaram e fecharam as pálpebras de tantos pacientes.
Essas que já escreveram os mais belos poemas e as mais amargas cartas de solidão.
Essas que ainda procuram e procuram e procuram, porque são livres para procurar.

Sim, não há nada que substitua a liberdade.

Pode-se perder uma parte do corpo, um grande amor, a família, o emprego, o sucesso, o trem. A tudo se supera, se adapta. Mas não se pode perder a liberdade, pois é através dela que se entende a vida, que se pode ter esperança de que, um dia, se possa ser realmente livre.

Nenhum de nós é imune ao tempo.

Então, por que a disputa, se a linha de chegada é tão negada, tão assustadora e combatemos tanto, retardamos tanto? Por que disputar o chegar na frente, se não queremos, no fundo, chegar?

E, nesse momento, eu deixarei de incomodar, quando cada um perceber que deve procurar seu destino, sua missão, seus desígnios. Quando entenderem e encontrarem, eu deixarei de incomodar.

Sim, porque eu só incomodo aos vazios, aos sem sentido, aos que vivem para seus umbigos, trajando antolhos, desfiando o rosário da intriga, da difamação, da incompreensão, da falta absoluta de generosidade, camuflados por palavras vãs e gestos coreografados para “inglês ver”.
 
 
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Publicado por Lílian Maial em 22/05/2010 às 17h47
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