Lílian Maial

Basta existir para ser completo - Fernando Pessoa

Meu Diário
20/10/2009 19h14
CAUSA & EFEITO
Causa & Efeito
®Lílian Maial
 
 
Venho de uma estirpe de cegos, desses  que não querem ver, enlevados por canções de ventos longínquos. Desde menina, tento imitá-las - as canções – nos bicos dos pássaros, afinar estações, verdejar caminhos, mas as folhas secas e os gravetos esquálidos me apontam outonos.

Tenho a marca de nascença dos versos gravados em sangue, vertendo anêmicos desejos e tímidos planos, frutos de uma sede atávica de um sertão de vozes. Não há migalhas nas rimas do tempo. Não há pistas de estrofes a sinalizar a volta.

Trago um código genético indecifrável, por mais que as letras me devorem. Há um embaralhador oculto entre as cordoalhas que me sustentam de poesia, que mexe e remexe e soterra as poucas palavras que ouso.

Carrego a tradição de séculos de moribundos, deambulando pelas noites sem lua, qual nosferatu que sabe o sol. Erro pelos cantos escuros, ávida de artérias pulsantes em páginas emboloradas.

Sustento o peso dos rostos, os lanhos dos olhares e o desprezo dos ancestrais que não honrei, que me deixaram, em testamento, os tomos que me escrevi. Reviro a expressão da última vontade de um homem dentro de todos os homens. Em escrita formal, a herança é a solidão.
 
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Publicado por Lílian Maial em 20/10/2009 às 19h14
 
12/10/2009 22h50
Dia da Criança
Dia da Criança
®Lílian Maial


 
Nada mais gostoso do que comemorar o Dia da Criança! É tudo sinônimo de alegria, agitação, confusão, gritaria, risadas e a deliciosa troca de energia, que começa logo no despertar.
Lembro bem dos rostinhos alegres e curiosos, loucos para me acordar e abraçar, mas, principalmente (e achavam que eu não sabia), receber os presentinhos.
Como é bom ser criança! Por isso que nunca deixei de sê-lo. Até hoje acordo todo dia 12 com a sensação de que vou receber presentes lindos!
Na verdade, o mais lindo de todos eu recebi exatamente há 25 anos, quando nasceu meu filho mais velho, que hoje faz aniversário. Foi uma gestação linda, cheia de medos e sustos, como a de toda “marinheira-de-primeira-viagem”, e com a expectativa da carinha e do jeitinho do filho que está pra nascer. Mãe é tudo igual. Todas sonham sonhos lindos pra seus bebês, mas não fazem a menor idéia do que o futuro reserva para eles. Hoje, ao ver meu filho homem, com uma carreira promissora, um amor transbordante e correspondido, além de todas as características que tentamos – eu e o pai - passar para ele, no que diz respeito a caráter, consciência social, fraternidade e liberdade, só me resta sentir orgulho e a sensação de “missão cumprida”, pois consegui – eu, arco - lançar a flecha para o alvo do futuro.
Eu – criança – vi minha criança crescer e começar a trilhar um caminho de trabalho árduo e grandes possibilidades de sucesso no amor e numa vida feliz.
Eu –criança – ainda com planos de algodão-doce, sorvete e cocada, comemoro o meu dia, o dia de todas as crianças de coração.
Minha outra criança, a do meio, agora é mais crescida que eu. É séria, ativista de suas idéias, de uma personalidade forte e determinada. Deve ter puxado à mãe, sabe-se lá de onde.
Muitas vezes ela me dá colo, ou nos “colamos” mutuamente. Haja cafuné! Ela é linda, e parece não ter noção da lindeza de seu coração, seus pensamentos e suas potencialidades. Comemoro com ela e por ela, e, por breves instantes, vejo nela a criança que ainda sou.
Minha criança mais novinha já começou a ter bigodinho e leves traços de uma barbinha rala, aqui e ali, que insiste em disputar comigo espaço para povoar as bochechas risonhas do meu caçula.
É, o moleque está crescendo e aparecendo! Está desabrochando um homem belíssimo, por fora e por dentro. Dotado de uma sensibilidade extrema, é a prova de que a vida é um constante milagre, que se renova a cada dia. Não tenho como não comemorar a criança que ele me faz lembrar que sou.
E assim passei meu Dia da Criança, sem comércio, sem correria, apenas brincando. Brinquei de ser carinhosa, de ser companheira, de ser mandona, de ser cozinheira, de ser amiga, de ser carente, de ser levada, de ser contente, de ser mãe.
E a melhor de todas as brincadeiras: de ser criança!
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Publicado por Lílian Maial em 12/10/2009 às 22h50
 
05/10/2009 21h44
DUERME LA NEGRA

DUERME LA NEGRA
Lílian Maial


Fui "cobrada" por não ter escrito nada ontem, sobre o falecimento de Mercedes Sosa. Este é, realmente, um ano de grandes perdas para o mundo das artes, em geral, notadamente a música.  Neste Domingo - 04/10/09 - se fué Mercedes Sosa, uma das maiores expressões da música latino-americana.

Sosa não chegou a ser ícone da minha juventude, pela minha pouca idade, na ocasião em que ela foi emblema de luta pela PAZ e LIBERDADE dos "sem-voz", com seu marcante timbre de voz de contralto.
Seu repertório folclórico e de conteúdo político e social fizeram dela uma figura respeitada e admirada, notadamente pela geração que, hoje, conta com cerca de 60 anos.


Aqui, no Brasil, ela começou a ficar conhecida a partir de 1976, após um dueto com Milton Nascimento, com a belíssima interpretação de "Volver a los 17" (aquela do famoso refrão "como el musguito en la piedra, hay si, si, si..."), da compositora chilena Violeta Parra, e que se transformou  num dos maiores destaques do álbum "Geraes", do Mílton.
Além dele, outros cantores brasileiros gravaram com a cantora, como: Fagner, Chico Buarque e Caetano Veloso.

Consta que Mercedes Sosa passou a integrar a esquerda a partir dos anos 60, e que teria se exilado na Europa, perseguida pela ditadura militar argentina, em 1979 (Paris e Madrid).

Independentemente das posições políticas, Mercedes merece ser ouvida por sua grande voz e seu repertório, sempre valorizando a música latino-americana.

Abaixo, transcrevo o poema de um amigo, grande admirador da artista:


Duerme La Negra

Enquanto o gás nos fazia chorar
Mercedes Sosa cantava
Me gustan los estudiantes.

Ela que trazia a Latino-américa
no semblante & na voz.

Enlaçava nosotros
em Los Hermanos
dando Gracias a la vida.

Se fué para nuevos cielos
assim como Alfonsina.

Entonces ahora
en silêncio
Duerme Negrita...

Ricardo Mainieri
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La Negra foi um dos mais famosos apelidos
de Mercedes Sosa


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Publicado por Lílian Maial em 05/10/2009 às 21h44
 
02/10/2009 20h51
RIO 2016 - SERÁ QUE EU CHEGO LÁ?
2016 – Será que eu chego lá?
®Lílian Maial


 
É, pessoal, o Rio conseguiu! Vamos sediar os Jogos Olímpicos de 2016! Não é o máximo?

Meu coração ficou absolutamente dividido nessa questão. Por um lado, meu “eu” patriótico se encheu de orgulho, alegria, vaidade. Nossa! Meu país, minha cidade! Que orgulho! Aos pouquinhos vamos nos infiltrando na panelinha. Lentamente o Brasil vai ficando mais conhecido no mundo, vai deixando de ter “Buenos Aires” como sua capital. Afinal, nada mais justo, pois não devemos nada, em termos de belezas naturais e qualidade esportiva, a nenhum outro país do mundo, guardadas as devidas proporções e dificuldades nacionais.

Porém, um outro lado se agita e se preocupa, pois 25 bilhões surgirão como que por encanto, para preparar a cidade para evento tão vultuoso. Fica a pergunta que não quer calar: de onde virão os 25 bilhões?

Nosso país possui problemas endêmicos de educação, saúde, segurança, emprego, habitação, já bastante familiares ao nosso dia-a-dia. Para saná-los, não existe bilhão nenhum. Existe esperteza, enganação, embromação. Existem medidas paliativas. Permanece o medo, o marasmo, a anemia, a ignorância. Quem bancará esses 25 bilhões?

Não digo que não surgirão empregos, que a cidade não será embelezada, que não será um marco para o país, enfim, um evento maravilhoso. Contudo, sabemos que se trata de maquiagem. Que por baixo da grossa camada de blush e pankake, o povão continuará pobre, faminto, apertado horas a fio em transportes indignos, com medo 24 horas por dia.

Aí me vem a pergunta abafada: e se aplicássemos esses 25 bilhões em nós mesmos? E se injetássemos uma quantia polpuda como essa na saúde, educação, segurança e habitação? E se déssemos condições dignas aos nossos jovens de se tornarem atletas bancados pelo governo, e se tornarem adultos com um futuro palpável?

Na ocasião do preparo para o “PAN 2007”, o Rio de Janeiro viveu um período de aperto, com toda a verba municipal desviada para as obras, na esperança de haver uma luz no fim do túnel, uma injeção de dinheiro estrangeiro, de se abrirem portas para o futuro. As únicas portas que eu vi foram as da rua, para uma série de trabalhadores que perderam seus empregos, ao final dos quatro anos em que se esperou pelo milagre. O “PAN” não trouxe as divisas esperadas, nem transformou a cidade em nada de diferente do que já não fosse.

Agora surge o receio de se repetir o mesmo nos Jogos Olímpicos, só que, ao invés de quatro, serão sete anos de apertos, obras pela cidade, verba reduzida, recusa (que já começou) de reajustes de salário dos funcionários públicos, já tão vilipendiados, enfim, crise em cima de crise, arrocho em cima de arrocho, de forma que a qualidade de vida dos cariocas se restrinja cada vez mais.

Quero que me perdoem pelo tom algo negativo, justo no dia em que todos estão comemorando, mas é que eu tenho uma visão mais real do que acontece com nosso povo, com nossas famílias, com nossos filhos. Sofro, como todas as mães, com cada manhã, quando não sabemos se, ao final do dia, nosso filhos voltarão para casa e nem se nós mesmas voltaremos.

De toda forma, estou muito feliz com a escolha do Rio de Janeiro para sediar a sede dos Jogos, pois seremos, por breve tempo, vitrine para o mundo, e acredito que nosso povo mereça um olhar de mais respeito.

Rio 2016, será que eu chego lá?
 
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Publicado por Lílian Maial em 02/10/2009 às 20h51
 
28/09/2009 19h54
MINHA MÃE TEM CHEIRO DE FLOR
Minha Mãe tem Cheiro de Flor
®Lílian Maial
 

Minha mãe tem cheiro de flor. Não é à toa que seus perfumes favoritos, por ocasião da minha infância, fossem dois florais da griffe Caron: “Fleur de Rocaille” e “Muguet du Bonheur”.  Até hoje sua pele recende a jardim, onde me deito e me delicio com as fragrâncias que exalam aconchego, proteção e ninho.
Minha mãe, que nasceu no inverno, tem as cores todas da primavera, como as flores do campo, que desabrocham com o calor e o carinho. Tem a delicadeza das flores, a maciez das pétalas, alguns espinhos necessários, mas também a plena consciência de sua função de florir.
Sou capaz de reconhecer o cheiro da minha mãe, como também o de cada filho, e não há nada mais meu (ou mais eu), do que o roçar em sua pele.
Minha mãe hoje parece uma margarida, com seu rosto-miolo redondo e rico em pólen de vida, com os cabelos de pétalas brancas, com os quais brinco de bem-me-quer e mal-me-quer, sendo que o mais importante é que ela-me-quer sempre.
O sorriso de minha mãe tem alquimia, tem o poder de potente analgésico, de curioso ansiolítico e do mais eficaz relaxante muscular. É bater e valer!
Além de alquimista, é um pouco bruxa, maga, adivinha e curandeira. Sua mão mexe comigo, alcança meu coração e meu espírito, massageia meu ego e transforma todas as minhas agonias. Algumas vezes provoca outras, muito embora, nesses casos, quando me deparo com a possibilidade de não mais tê-la por perto.
Minha mãe é um bouquet de amor-perfeito, que a Natureza me presenteou, e que todos os dias se abre para que eu caiba inteira, num só amarrado.
 
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Publicado por Lílian Maial em 28/09/2009 às 19h54



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