Lílian Maial

Basta existir para ser completo - Fernando Pessoa

Meu Diário
14/08/2008 19h07
OLIMPÍADAS DE NANQUIM

®Lílian Maial


Nasci e cresci no bairro da Tijuca, zona norte do Rio de Janeiro, num apartamento simples, sem grandes facilidades, sem luxos e sem muita informação, por conta dos tempos de ditadura. No entanto, criança que era, andava e brincava livremente nas ruas e praças do bairro, sem conhecer o medo de cruzar com outro ser humano nas ruas, sem o receio de ter a bicicleta roubada, sem ter que usar disfarces ou subterfúgios para freqüentar os lugares que bem entendesse. 

Hoje, tudo é diferente. De repente, senti na pele as mudanças de maneira súbita. Não sei o que se passou comigo, ou onde estive nos últimos 30 anos, que, de uma hora para outra, veio uma avalanche de realidade a me sufocar a ideologia e a crença na sociedade. 

Costumo fazer percursos habituais para o trabalho, nos mesmos horários, sem grandes desvios. Pagamentos via internet, talão de cheques entregues em domicílio, quase tudo comprado em lojas de shoppings, o que me faz caminhar muito pouco por ruas fora do trajeto diário de casa para o trabalho e vice-versa. 

Aí vieram essas férias meio fora de época, complemento das forçosamente interrompidas no início do ano, que, para não perder os dias que faltavam, fui convidada a usufruir do restante agora. Com os filhos em aulas e os amigos trabalhando, resolvi usar os dias para cuidar da saúde, fazer pequenas e necessárias compras para a casa, colocar o sono, a leitura e o cinema em dia. 

Muito bem, hoje, caminhando por uma das avenidas principais e mais movimentadas do meu bairrro, nas poucas idas a bancos, fui surpreendida com uma situação inusitada: pessoas e mais pessoas vindo em minha direção, com pressa, expressão de aborrecimento, atarefadíssimas, esbarrando, atropelando, avassalando quem estivesse pela frente, não importando se crianças, mulheres, gestantes, idosos, ou quem quer que fosse. Todos, sem exceção, davam encontrões uns nos outros, sem ao menos sorrirem ou se desculparem, como se fosse normal incomodar. 

Isso me causou um embaraço, uma sensação de não pertencer, uma noção de estar fora do tempo e lugar. Parecia uma outra rua, outra cidade, outro país, outro planeta, sei lá! Cenas esdrúxulas, como saídas de um filme de David Linch, passavam diante dos meus olhos incrédulos, como se eu estivesse adormecida por uns 30 anos! 

Parada num sinal, para atravessar a rua abarrotada de pessoas, vi um homem com aspecto de mendigo, imundo, em andrajos, descalço, e com aquele olhar inconfundível de insanidade, catando alguma coisa no chão, vociferando para ambulantes de barraquinhas numa das esquinas da rua, quando, de repente, ele atira alguma coisa na direção das barraquinhas, sem se importar com as pessoas que passavam pela calçada. Percebi que se tratava de um pombo morto, que veio parar quase ao meu lado. Imediatamente um dos ambulantes pegou o cadáver do pombo e o atirou de volta ao mendigo, em meio à população que sequer parou ou desviou o trajeto. 

O mendigo novamente agarrou o pombo e o devolveu, com algumas palavras de baixo calão, ao som das gargalhadas dos ambulantes.
Não satisfeito, ele começou a apanhar pedras da calçada e a atirá-las, sendo que uma delas quase raspou meu rosto estupefato. O pior, é que tudo isso à luz do dia e sob o olhar e os risos de três guardas municipais, que apenas moviam os músculos do rosto, em sinal de diversão. E as pessoas se abaixando e, agora, desviando, espremidas entre as barracas dos ambulantes e a pouca calçada trafegável. 

Há muito não me sentia tão desprotegida, tão à mercê, tão vulnerável. Passei a entender as pessoas que sofrem de síndrome do pânico, porque eu mesma me senti desamparada e única cercada da multidão que não parecia se incomodar com a cena kafkiana que viviam. 

Logo me veio a idéia de gado e do terror de um arrastão, ou de uma falsa blitz e a sensação de impotência diante dos fatos. De como a sociedade está doente. Não sei onde estamos e nem onde vamos parar. 

De repente, a população e a televisão mobilizados com as olimpíadas, onde o esporte faz a união dos povos. No momento seguinte, a invasão da Geórgia e o bombardeio russo, com centenas de mortos, feridos e desabrigados. Cenas mescladas de vitória, de alegrias e metas alcançadas, e de famílias inteiras olhando pateticamente suas moradias destruídas. Jovens tentando (e conseguindo) superar suas próprias marcas de resistência e disciplina. E a falta de flexibilidade e tolerância do homem destruindo a vida. Antítese humana. Medalhas de ouro no podium da loucura! Marcas de filhos atletas vencendo seus limites, para orgulho de suas famílias, e marcas de nanquim escorrendo em meio às lágrimas das famílias sem amanhã e sem seus filhos. 

Não! Nem Kafka, nem Linch, nem Dante contavam com a loucura do homem! 

Hoje, observando o mendigo louco e a multidão em seu dia-a-dia enlouquecido, fiquei assustada com a falta de parâmetros para julgar a verdadeira loucura. Me peguei pensando na falta de nexo das notícias, na maluquice dos jornais. Será que só eu percebo a doideira de uma mesma página de jornal enaltecer o atleta Phelps e, na coluna ao lado, somar o número de corpos e desabrigados da Ossétia? 

E aqui ninguém sequer notou o que foi feito do pombo morto, afinal.

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Publicado por Lílian Maial em 14/08/2008 às 19h07



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