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![]() PURGATÓRIO
Lílian Maial Nada mais a fazer. A pedra cravada no seio e tudo jaz na ribanceira da palavra. Por tantas vezes nos perdemos e outras tantas já nos juramos, que a vergonha se escondeu em rubor. Deixemos de lado as reverências, esqueçamos as boas maneiras e as gentilezas, larguemos a polidez que o amor dispensa. No fundo, o ranço magoando o peito, a máscara ferindo a pele da verdade e uma represa de sentimentos rompendo o limite do suportável. Vai! Sai de mim e do meu sono! Foge para bem longe das retinas, que o amargor marca as horas, se pouco falta para me desconhecer! Não, já não há como encarar o dia e as noites acolhem um silêncio inquisidor. Sem despertar do pesadelo, o que resta é a certeza do engano. Injusto a dor do presente ser preço de ventura do passado. Não é bondosa a cegueira da paixão. Ao contrário, é fria e cruel, traiçoeira mãe que envenena os filhos. Nada a fazer. O peito arde dilacerado e derrama um sangue corrosivo, que consome as possibilidades do verbo. Fantasma em vida, arrastando correntes de desespero, no inconformado purgatório de saudade. ************ Lílian Maial
Enviado por Lílian Maial em 14/01/2011
Alterado em 21/10/2020 Comentários
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