Lílian Maial

Basta existir para ser completo - Fernando Pessoa

Meu Diário
22/05/2013 00h04
Sobre essas coisas que batem à nossa porta, sem mais, nem menos...

 

Sobre essas coisas que batem à nossa porta, sem mais, nem menos...

®Lílian Maial

 

 

É estranho ainda pensar em nós depois de tanto tempo. Inevitável, quando já se comemorou tantas e tantas vezes a mesma data, que se anseia por ela, contando orgulhosamente os anos.

 

Vem aquela dor fantasma, que nem a que um amputado sente muito tempo depois da cirurgia. Não consegue entender o membro ou órgão operado. Sabe apenas que algo não está mais lá. E que dói, lateja, pulsa e não deixa esquecer que, um dia, já foi inteiro.

 

Esquisito por demais acordar pela manhã e precisar ocupar o dia de tarefas importantes, de atribuições imprescindíveis, de um cotidiano que não faz muito sentido, somente para passar o tempo, enquanto algo não acontece. Algo que não se sabe.

 

Lá pelo meio da tarde, quando as maritacas fazem algazarra e o dourado toma das folhas das árvores, nos damos conta da distração que foi o dia e do cansaço, sem muita explicação, sem exercícios, sem trabalho pesado, que se abate sobre nossos ombros. Um peso sem dor. Uma dor sem agonia. Uma agonia familiar, acostumada a incomodar sem muito estardalhaço.

 

Casa. Família. Cachorro. Noite. Novela. Internet. Mobília. Retratos. Velhas músicas e antigos livros. Mesmo endereço. Triste sina de passarinho.

 

Quem sabe não me bata à porta, dia desses, a simples libertação, numa surpresa que me traria alguma paz?

 

Não há como ter paz sem arrancar o espinho. Esse que fica cutucando a ferida de propósito. Essa gaiola de concreto, imposta pelo capricho do espinho que espeta e também se fere, pela simples necessidade de se fazer presente em dor.

 

Dia desses há de bater à porta a liberdade: azul, definitiva, suave e perfumada...

 

 

Hora de acordar e perceber que o dia já vai adiante, tantas coisas por fazer, o tempo urge, ruge e foge. Não era sonho mais uma vez. Preciso preparar o café da manhã do meu filho.

 

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Publicado por Lílian Maial em 22/05/2013 às 00h04
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21/02/2013 17h07
NATURALMENTE

NATURALMENTE

®Lílian Maial

 

De súbito, a pele cobriu-se de nódoas, tornou-se áspera, escurecida, com rachaduras. Imaginou uma série de doenças, exposições a materiais os mais diversos. Nada sentia, a não ser uma necessidade premente de sol. Ele a revigorava! Estava viva! Mas aquela pele...

Depois foram os cabelos. Uns fios esverdeados, bem no meio da franja densa, davam-lhe um aspecto jovial, com certo toque “punk”. Criou imediatamente penteados sofisticados, exóticos, fazia sucesso por onde passava.

Até aí, tudo bem. Só que, tempos depois, começaram a brotar raízes de seus pés. Logo no início, conseguia esconder nos sapatos. Em pouco tempo, no entanto, onde encostasse ficava grudada, enraizada. Precisava se movimentar o tempo todo.

Entrou num misto de curiosidade, desespero e orgulho. Estava frondosa! Os braços iam esticando e afinando, galhos e mais galhos de envolver, alguns cipós pendurados. Jogava-os para o lado, num ar “blasé”. A cabeleira clorofilada caía-lhe pelo pescoço, vinha uma imensa necessidade de oxigenar, fotossintetizar, orvalhar!

De suas veias jorrava seiva. De seu púbis nasciam botões de flor. Desejo intenso de polinização. Certo dia, um beija-flor atrevido roçou-lhe as coxas e sugou e sugou e sugou. Não cabia em si de felicidade! De cada beijo da esplendorosa ave, um fruto nascia-lhe do ventre. Frutos e mais frutos, cada qual mais suculento.

Completa e plena fixou morada. Nunca mais se soube dela. Há quem diga que, debaixo daquela árvore, quem adormece sonha sementes.

 

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Publicado por Lílian Maial em 21/02/2013 às 17h07
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31/01/2013 12h44
HUMORES

 

HUMORES

® Lílian Maial

 

 

Tenho que reconhecer que meus humores são os maiores responsáveis pela minha percepção do estado das coisas. Estou sempre em alerta, à espera, alimentando a visita do inesperado, aquele alumbramento, que enche o coração e não deixa brecha para o tempo.

Há dias de aguardar em paz, de cuidar do espaço, como quem prepara a morada do novo habitante. Em outros, porém, percorre a espinha uma sofreguidão de anseios, uma premência de vontades, no fundo, um vazio pulsando ocupação. São eles, os humores, neurotransmissores, ou seja lá que nome tenham!

Sou assim desde criança. Mamãe dizia que era “bílis”. Papai entendia melhor, tinha as mesmas sensações, permeadas por rompantes, que a minha infantilidade não permitia.

Desde o primeiro momento, quem sabe a visão da luz, no parto, ou, mais adiante, a saciedade do aleitamento, o que importa é que esse encantamento se repita, que se eternize. Possivelmente eu tenha descoberto a origem do significado de saudade. Ou, até mesmo, o êxtase da droga, sem nunca tê-la experimentado. Não seria o amor – essa satisfação da saudade – a mais potente e viciante droga?

Meu corpo precisa mais e mais desse sal, desse princípio ativo que me causa irrequietude e preenchimento.

Meu peito se inunda dessa química toda, que faz com que eu não esqueça, que eu vibre, que eu bombeie energia.

Minha mente explode nessa poesia, que racha as comportas e transborda de mim e em mim.

Hoje é um desses dias de colecionar versos e rasquear ideias.

 

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Publicado por Lílian Maial em 31/01/2013 às 12h44
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29/01/2013 21h08
NÃO CONSIGO DAR UM TÍTULO A TANTA DOR

 

Não consigo dar um título a tanta dor

   Lílian Maial

 

“A poesia está ferida.
Versos se negam a soletrar passarinhos,
rimas queimam folhas em branco, 
tudo é escombro.
O riso da letra deu lugar ao lamento
e a dor é insuportável.
Nem o silêncio é conforto!
Um céu cinzento de chuva e de fumaça,
confusão imiscível na manhã.
Um poema ardeu meu peito.

Um adeus lambeu a canção.

Réquiem para os meninos sem amanhã.”

                        – Lágrimas de Santa Maria –

 

 

Estou até agora tentando entender a mistura louca dos meus sentimentos, diante dessas 234 mortes no incêndio na boate Kiss, em Santa Maria, no Rio Grande do Sul.

Num primeiro momento, lamentei, como qualquer pessoa que ouve uma notícia terrível de morte traumática, como: incêndio, afogamento, esmagamento e afins. Logo me coloquei no lugar das mães desses jovens, mãe que sou de adolescentes, e pude avaliar a dor do nunca mais. Nunca mais os sorrisos, o cheiro da pele, os beijos despretensiosos na hora de sair, o café da manhã preparado com amor e orgulho, as tardes de domingo no sofá, comendo pipoca e assistindo a filmes B. Nunca mais o futuro, festas de formatura, casamentos, netos imaginados, visitas, aniversários, Natais, nada! Um vazio imensurável tomou conta de mim. O que seria da minha vida sem meus filhos, assim, de repente? Então veio o sentimento humano de alívio de não terem sido os meus.

Logo a seguir, uma vergonha se apossou do meu coração. Vergonha de ter sentido alívio. De ter preferido que fossem os filhos dos outros. Uma reedição, em pensamento, da “escolha de Sofia”. Será que é natural, que é humano? Sim, é, eu sei, mas é tão solitário esse sentimento! Coloca-nos tão sozinhos no mundo e, ao mesmo tempo, tão iguais! Não houve pai ou mãe que não tenha sentido a mesma coisa.

Aí vieram os comentários nas redes sociais, de tudo que é tipo, expondo feridas, recalques, fanatismo e mau gosto, como também solidariedade, união, orações e poesia. 

Discussões sobre quem seria o responsável: se o dono da boate, os seguranças, a banda que se apresentava. Quem, além dos órgãos de fiscalização? Sim, porque todo cidadão contribui com impostos de todos os tipos, para a garantia de sua segurança, que inclui a fiscalização de todo e qualquer estabelecimento comercial, público ou privado, de diversão, bens e serviços.

Acidentes em barcos de turismo, em parques de diversão, encostas, estradas, em edificações... Quantas mortes já não houve por falta de fiscalização e superlotação? Basta lembrarmo-nos do “Bateau Mouche”, dos desabamentos de edifícios, de jovens projetados de brinquedos de parques de diversão e tantas outras mortes evitáveis, se cada um cumprisse seu dever.

Cai um avião, culpa do piloto. Morre criança num hospital, culpa do médico que faltou ao plantão (e vinha faltando havia meses). Desaba edifício, culpa do mestre de obras. Incêndio na boate e agora vão querer culpar a banda, que fazia esse tipo de espetáculo em todas as casas de show nas quais se apresentavam. Será que ninguém sabe que a responsabilidade de autorizar o funcionamento é do governo? E a fiscalização dos bombeiros? E o alvará vencido? E a superlotação? Onde está a fiscalização? E porque não interditaram antes? Como pode um estabelecimento, uma casa noturna, não ter uma saída de emergência, uma sinalização, uma saída nos fundos, e receber autorização de agentes do governo para funcionar? Simples: porque ninguém se importa.

Agora, certamente, vão chover denúncias de boates irregulares por todo o país. Casas noturnas serão fechadas, numa dramatização de fachada, com alguns bodes expiatórios, até que tudo caia novamente no esquecimento, como tantas outras tragédias que nosso povo já vivenciou, muitas, até hoje, sem solução para os que ficam, como os inúmeros desabamentos noticiados.

E o contribuinte pagando e pagando, acreditando-se seguro. Ninguém está seguro em lugar nenhum! E nós todos vamos esquecer, em poucas semanas ou meses. Só não vão esquecer - jamais - os pais desses jovens, que viram seus filhos privados do amanhã.

Esse último sentimento – o da culpa pelo esquecimento – trago no peito, reavivado, em chama ardente, a cada nova desgraça, que me relembra do quanto sou humana, imperfeita e assustada com minha própria impotência, sem a menor condição de proteger sequer a mim, que dirá aos meus!

Não, não consigo dar um título a tanta dor, tanta negligência, tanta injustiça, tantos pesos e tantas medidas diferentes pela vida! Eu, como eles, só queria dançar pela noite, lavar a alma de tanta juventude e, quem sabe, ver o nascer do sol.

 

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Publicado por Lílian Maial em 29/01/2013 às 21h08
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20/12/2012 18h04
Maia versus Maial (ou: “acostumados ao fim do mundo”)

 

Maia versus Maial (ou: “acostumados ao fim do mundo”)

                                                                                                                                     ®Lílian Maial

 

Com a proximidade do “fim do mundo” na previsão dos maias, venho pensando na quantidade de fins de mundos que minha família - Maial - já enfrentou, sempre recomeçando, muitas vezes do zero.

Meus ancestrais do lado de papai – origem desse meu Maial – eram da Síria, mais precisamente de Damasco, e vovô veio muito jovem, ainda, rapazote, para o Brasil, a fim de se casar com vovó, menina de quinze anos, a quem nunca vira na vida, que residia em São Luís do Maranhão, também descendente de árabes (filha de pai sírio e mãe de origem francesa).

Ao vê-la pela primeira vez, vovô se apaixonou pelo tipo faceiro, mignon, cabelos cacheados, na altura do queixo, bem diferente das sírias de cabelos negros, longos e lisos de sua terra natal.

Vovó, por sua vez, namorava (e era apaixonada) por um vizinho, e nem passava por sua cabeça casar-se com vovô. Só que esses arranjos familiares, ultrapassados nos dias de hoje, naquela época, início do século XIX, eram comuns e obrigatórios. Então, para casar, vovô logo se estabeleceu como comerciante, como todo bom árabe, com negócio de tecidos finos, como sedas e assemelhados.

Minha pequena avó se viu em maus lençóis e combinou de fugir com o namorado, que lhe deu um bolo e desapareceu, deixando vovó desolada e sem saída. Não me perguntem o paradeiro do rapaz, pois o que sei me foi contado por vovó, que nunca mais soube dele.

Casaram. Vovó não gostava de vovô, mas ele era completamente louco por ela, enchia-a de mimos, fazia-lhe todas as vontades. Mudaram-se para Teresina (Piauí) e, lá, ele desenvolveu seu negócio com um sócio, servindo à sociedade abastada do local. Prosperaram.

Quando vovó estava grávida de papai, seu segundo filho, a mãe dela contraiu tifo e ficou muito mal. Então, vovó viajou para São Luís, para cuidar de minha bisavó, que se recuperou, porém, vovó foi derrubada pela doença, aos 7 meses de gestação.

Vovô, ao saber do risco de vida de vovó, largou tudo aos cuidados do sócio e foi ficar com sua amada. Ela, felizmente, sobreviveu e voltaram para Teresina, tão logo se sentiu forte para enfrentar a viagem.

Ao chegarem, o sócio havia limpado a loja, o estoque e deixado dívidas incalculáveis, levando a família à ruína, com um filho pequeno no colo e o meu pai, que nasceu logo depois de chegarem. Um verdadeiro “fim do mundo”.

E aí vem a saga de recomeço dos Maial. Vovô pegou a mulher e os dois filhos pequenos e veio para o Rio de Janeiro, tentar a vida do início. Conseguiu trabalhar numa loja de tecidos, agora não como dono, mas como simples vendedor, para dar sustento à família e, aos poucos, foi juntando aqui e ali, com paciência, dedicação e afinco. Depois de um bom tempo como empregado, conseguiu comprar uma barraca de feira e foi vender roupas, que era seu ponto forte. Acabou expandindo o negócio, com um tino incomparável para o comércio, a ponto de poder comprar apartamento e dar bom estudo aos (agora três) filhos.

Bem mais tarde, casado e com filhos, meu pai também veio a perder tudo e ter de recomeçar quase do zero, e só não afundou de vez, porque mamãe trabalhava e segurou o rojão, até ele conseguir dar sua volta por cima, com muita luta e à custa de uns bons anos de sua vida. Veio a falecer precocemente do coração, mas já com a vida da família garantida.

Encurtando o assunto, toda a família Maial tem uma história particular de fim de mundo. Todos, sem exceção, tiveram diante de si, de uma forma ou de outra, em algum momento de suas vidas, um “fim de mundo”.

Portanto, onde quer que haja um fim de mundo, seja inca ou maia, maranhense, piauiense ou carioca, sempre haverá um recomeço Maial.

Feliz Mundo Novo para todos!

 

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Publicado por Lílian Maial em 20/12/2012 às 18h04
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